Aposta nas soluções à medida do cliente
O cenário de crise económica e financeira em Portugal e na Europa afectou a actividade das seguradoras, que não estão imunes. Para combater as fracas perspectivas do sector, tendo em conta a queda do rendimento das famílias e das empresas, as empresas do sector prometem apostar na eficiência, num serviço mais próximo do cliente e em produtos mais flexíveis, tirando partido das oportunidades criadas pela própria crise.
Uma visita aos websites das principais seguradoras a operar em Portugal mostra as dificuldades que o sector atravessa para conseguir conquistar clientes: as palavras promoções e descontos aparecem em grande destaque nas páginas de entrada de várias empresas, prometendo um acesso mais simples, directos e rápido aos serviços. O panorama de crise é geral e as seguradoras não estão imunes. Têm de combater a erosão de clientes e de volume de negócios, numa altura em que a queda do rendimento das famílias está também a criar clientes mais exigentes e mais atentos. Os seguros do ramo Vida sofrem um grande impacto e, ainda mais, os seguros Não-Vida, sobretudo os ramos de seguros de carácter não obrigatório.
Elencando as principais dificuldades que o sector atravessa, o presidente do Instituto de Seguros de Portugal referiu não só a redução dos rendimentos disponíveis das famílias e das empresas, num contexto de "desaceleração económica e da continuada incerteza e volatilidade dos mercados, em particular dos títulos soberanos", mas também "a diminuição dos incentivos fiscais à subscrição de determinados produtos de poupança". Neste caso, Fernando Nogueira fazia referência, num discurso proferido no final de outubro, à "opção de alguns operadores do sector bancário em privilegiarem a canalização de poupanças, tradicionalmente captadas através de produtos da área seguradora com características de médio e longo prazo [os chamados Planos Poupança Reforma, ou PPR] para depósitos."
Num contexto particularmente adverso, demonstrado pelos dados do final do terceiro trimestre, que revelam uma queda do produto de seguros superior em 30% em relação ao período homólogo, uma das alternativas das seguradoras tem sido aumentar a sua eficiência e a qualidade do serviço.
"Os clientes estão mais exigentes", refere António Bico, CEO da Zurich Portugal (ver entrevista) e, por isso, a seguradora internacional aposta no aumento significativo dos padrões de qualidade, na celeridade e nos aspectos qualitativos, reconhecendo que a disponibilidade financeira dos clientes também tem de ser tida em conta.
Este é também o ponto de vista da OK! teleseguros, vocacionada para o ramo automóvel, um dos que mais tem sentido o impacto da crise. Carlos Leitão, administrador-delegado da empresa admite que "os clientes estão a tornar-se mais autónomos no processo de decisão de compra do seu seguro automóvel" e que, precisamente devido aos constrangimentos ao nível do rendimento, é necessário criar soluções que possam ir ao encontro das novas necessidades, "flexibilizando as formas de pagamento ou possibilitando o fraccionamento do pagamento do seguro."
Ainda assim, a redução dos preços não é um tema Pacífico no sector, havendo quem defenda que a alternativa não passo por reduzir preços, mas sim por oferecer esquemas mais flexíveis. É o caso de José António Sousa, CEO da Liberty Seguros Portugal. Em entrevista ao jornal Expresso diz: "Como o que determina o preço nos seguros é o risco assumido, não vemos nenhuma alteração no perfil de risco dos clientes e do mercado que nos leve a diminuir os preços. Antes pelo contrário, o mercado devia estar já a aumentá-los." A solução diz estar, por exemplo, no fraccionamento de prémios sem penalização, a quem tem dificuldades nos pagamentos.
Proximidade com o cliente
A aposta em melhorar o serviço passa também pela criação de centros de atendimento, assumindo a aposta de criar uma relação mais próxima com os clientes, caso do Centro de Regularização de Sinistros da Zurich Portugal. "O centro vem aumentar, significativamente, os padrões de qualidade na prestação dos nossos serviços", explica António Bico, referindo que a "interacção e interlocução" com o cliente são um factor de qualidade. Também a OK! teleseguros, uma seguradora directa que tem como filosofia a aposta nos canais mais rápidos e directos como os call centers e os serviços online, apostou na abertura de lojas em Lisboa e no Porto.
Precisamente neste ponto, o regulador do mercado refere a importância de adoptar uma conduta adequada no relacionamento com o consumidor como uma das "mais importantes lições a retirar da crise financeira", referindo a importância de criar processos de gestão de reclamações e a escolha de um provedor do cliente, para além da necessidade de fazer uma publicidade transparente. O presidente do ISP refere ainda uma outra lição: a adopção de sistemas de gestão de riscos e de controlo interno das empresas de seguros. "No contexto da crise financeirainternacional, a implementação de medidas baseadas nos riscos e requisitos de governação robustos ao nível dos sistemas de gestão de riscos e controlo interno ganharam um relevo preponderante", disse Fernando Nogueira.
Produtos especializados
A criação de novos produtos, mais diversificados e mais flexíveis tem sido também uma aposta do sector dos seguros. Grandes seguradoras como a Fidelidade Mundial e a Tranquilidade têm criado serviços especializados para empresas, oferecendo produtos específicos para vários ramos de actividade. A Fidelidade Mundial e a Império Bonança criaram, por exemplo, a ENS - Empresas e Negócios Seguros, uma marca exclusiva para empresas e pequenos negócios, através da qual oferecem produtos para sectores como a hotelaria ou a agro-pecuária. Também a Zurich Portugal decidiu apostas em segmentos de mercado e lançou produtos específicos para as empresas de extracção de mármore, pedra e areia ou uma solução para farmácias e para-farmácias. "Esta permanente actualização dos nossos produtos prende-se com a nossa filosofia de segmentação e de estudo do mercado, já que as necessidades estão sempre em mutação", explica António Bico.
Com uma menor presença no mercado português, também a Hiscox aposta na conquista do mercado português via nichos de mercado. Áreas como a Responsabilidade Civil Profissional e o Seguro de Directors & Officers ou a área de Arte & Clientes Private são áreas que quer desenvolver na perspectiva de "continuar a criar a necessidade da contratação de seguros especializados", diz Gonçalo Baptista, director-geral da Hiscox Portugal.


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